quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Paulo Leminski em 40 linhas



01. Eu disse uma vez que já aprendi muita coisa na vida, mas esqueci a maioria ...
02. Mas do meu poeta preferido eu quero sempre lembrar.
03. Ele consegue ser crítico, cínico, ácido, engraçado, sarcástico, profundo, doce e brilhante, tudo ao mesmo tempo.
04. "Certezas o vento leva, só dúvidas ficam de pé" ... tão verdadeiro.
05. Sabe aquelas coisas que você sabe e sente, mas não expressa? Ele expressa.
06. Quando você lê, o peso é outro.
07. Ouço a voz dele me dizendo tantas coisas, como minha consciência.
08. "A noite enorme/ tudo dorme/ menos teu nome" ... tanto sentimento, em tão poucas palavras.
09. Hippie, tradutor, judoca, escritor, poeta, pai, marido, bêbado, etc...
10. Uma mistura louca de uma série de coisas que resultaram na essência mais surpreendentemente simples que já vi.
11. "Pelos caminhos que ando/ um dia vai ser/ só não sei quando"
12. "Não discuto com o destino, o que pintar eu assino"
13. "Para que cara feia? Na vida ninguém paga meia"
14. Esse conformismo, essa aceitação, ao mesmo tempo cética diante as certezas e crente no desconhecido, encantam.
15. Tantas coisas ele escreveu que me transformaram que:
se
nem
for
terra
se
trans
for
mar
16. E levo tanto dele em mim, dentro, que um dia estamparei na pele .. 'o mais fundo está sempre na superfície'
17. Eu tinha apenas um ano no ano de sua morte, e só depois de longos anos de sua partida aqui foi que entendi:
18. Lápide 1 - epitáfio para o corpo:
"Aqui jaz um poeta.
Nada deixou escrito
Este silêncio, acredito
São suas obras completas."
19. Lápide 2 - epitáfio para alma:
"Aqui jaz um artista.
Mestre em desastres
Viver com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
Deus tenha pena dos seus disfarces."
20. O que ele não sabia talvez é que morreria de cirrose hepática...
21. "Cinco bares, dez conhaques/ atravesso São Paulo/ dormindo dentro de um táxi"
22. Temos muitas coisas em comum ... rs
23. Me inspiro nele para escrever.
24. Acho que foram pouquíssimas as vezes, após tê-lo conhecido, que não pensei nele enquanto escrevia.
25. Talvez isso explique o quanto dele há no que escrevo.
26. "Quando escrevo versos
eles vêm assim
de costas, de frente
de mãos dadas
ou nem vêm.
A rima às vezes aparece,
outras nem também.
Um terço de tudo que escrevo
Fica, os dois outros
vão além ..."
27. Esse eu fiz para ele.
28. Já musicaram tantos poemas dele. Ele já participou de tantas composições. Teve tantas parcerias ...
29. Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Haroldo de Campos, entre tantos outros ...
30. "Nunca cometo o mesmo erro duas vezes, já cometo duas, três, quatro, cinco, seis ... até esse erro aprender que só o erro tem vez"
31. E quem não insiste em erros? Ninguém! E tá errado? ...
32. "Duas folhas na sandália, o outono também quer andar"
33. "Jardim da minha amiga/ todo mundo feliz/ até a formiga"
34. "Soprando este bambu, só tiro o que lhe deu o vento"
35. "Tarde de vento/ até as árvores/ querem vir para dentro"
36. É tanta sensibilidade, que qualquer tentativa de descrição se torna pesado demais, fica o silêncio.
37. "Sou propenso ao silêncio" foi o que disse e disse tantas coisas embora tenha morrido tão cedo ... mas perae ... morrer?
38. "não me toquem nessa dor/ ela é tudo que me sobra/ sofrer, vai ser minha última obra"
39. "moinho de versos/ movido a vento/ em noites de boemia/ vai vir o dia/ quando tudo que eu diga/ seja poesia"
40. "morrer faz bem à vista e ao baço/ melhora o ritmo do pulso/ e clareia a alma morrer de vez em quando/ é a única coisa que me acalma"

E faz 20 anos que ele foi embora, é o que alguns registros mostram, mas todas as palavras dispersas .. que viraram poesia, todo esse sofrimento e dor contidos, como se tudo que escrevesse fosse último, que por fim acalmou... mostram, para mim, que ele não morreu não sô, para mim ele tá andando por aí e vive cochichando no meu ouvido ...
Débora Paixão

domingo, 24 de janeiro de 2010

+ haicais

"tirei uma foto da rua
você apareceu no canto
no ato, revelei teu encanto"

"altas horas
baixa auto-estima
pausa para fazer rima"

"após noites mal dormidas
todos compram de manhã
sonhos de padaria"


Débora Paixão

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"HOJE eu fico aqui
só
com VOCÊ
se
comigo ficar
AMOR
depois vou embora
lá
para ONDE for
aqui
você ficará
DOR"

Débora Paixão

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tarefas Diárias Para Sempre

"(...)
Tenho mais o que fazer:
Vou apagar as luzes de casa
abrir as minhas asas
ir em busca de lazer
Vou lá quebrar aquele muro
que me separa do vizinho
aquele ... que vive sozinho
e respirar um pouco de ar puro
Não vou perder as esperanças
vou brincar de ser criança
e aprender com a inocência.
O mau humor é uma doença.
Vou sair do meu ninho
e aprender a voar
e libertar o passarinho
que me ensinou a cantar."

Débora Paixão

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sem tempo

O tempo escreve nosso destino usando caneta, não lápis. Se lápis fosse, apagaria metade. O corretivo não dá conta dos erros e erro maior é tentar corrigir as falhas que o tempo comete. Eu sigo apenas vivendo, um dia de cada vez. Um e o outro, o outro e o um. Não vejo erro algum no que faço agora, mas sempre que olho para trás vejo rasuras sobre o passado. Esperto esse tempo, pois não? Percebe os erros nas linhas, nas letras e nos parágrafos e cobre com riscos e rabiscos, tudo que escreveu às pressas, na falta dele mesmo talvez.
Débora Paixão

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Frigidez Poética

"Quando escrevo
só espero enganar a mim,
mas vocês que lêem
tomam a frente
e vão tomando como verdade
as coisas que acreditam que sinto,
mas eu não sinto nada.
Tenho uma alma vazia,
pois nada em mim permanece,
tudo que chega voa pelos ares,
tudo fica disperso,
sentimentos reversos
pensamentos expressos, apenas.
Tudo que já escrevi
passou um dia por aqui,
mas dentro da minha cabeça.
As coisas que passam no coração
não cabe a mim explicar...
nem posso.
E eu não culpo ninguém por isso.
É uma condição.
Quando a gente lê se identifica,
acredita piamente naquilo.
Eu sempre caio nessas armadilhas,
até mesmo nas que eu mesma faço.
Não acredito em nada enquanto escrevo,
afinal não estou sentindo nada.
Apenas estou tomada pelas palavras...
(Como são poderosas!)
E ainda assim mantenho minha postura,
cética, enquanto estou escrevendo,
mas quando leio...
Ah, nessa hora,
eu começo a entrar em dúvida..."

Débora Paixão

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

...

É triste sentir-se sozinho na multidão.
Encontrar-se cercado de estranhos
Que andam por caminhos vários
Todos sem rumo, sem direção.
E você lá, bem lá no meio deles
Andando a esmo, sem se importar
Com quem, com tempo, com lugar...
Sem ter com o que se preocupar,
Nem alguém que se preocupe
Se você está bem, se está doente...
Não há razão que se desculpe.
Sabe aquela solidão sentida diariamente,
Que cava lá no fundo, dentro da gente,
Criando um abismo tão profundo,
Que chega ao lado de fora dolorosamente,
Deixando-nos a sós com tudo que sobra,
Com todas aquelas coisas que nos resta?
Revela a busca pelo amor que não se aflora
Por viver um aniversário sem festa.
Ausente da presença de alguém que possa
Te libertar de tudo aquilo que o aprisiona...
De tudo aquilo que sempre vem à tona.
O medo, a vaidade, as velhas mágoas,
O orgulho, a saudade, os seus princípios...
Tudo aquilo que pela alma deságua
E contribui para o nosso isolamento
Das pessoas, do mundo, das cores
De tudo, e sobretudo, de nós mesmos.

Débora Paixão

sábado, 12 de dezembro de 2009

"Sobre o tempo" em 40 linhas ...



01. hoje o tempo está indeciso.
02. as nuvens passam tão rápido pelo céu...
03. ... que a luz que entra pela janela do meu quarto
04. parece coisa de discoteca
05. uma hora o vento entra com tudo
06. balançando a cortina
07. tirando as roupas do varal
08. e logo no minuto seguinte tudo está tranquilo
09. e o calor começa a incomodar demais
10. já até choveu por aqui hoje
11. e agora o sol está brilhando
12. vai entender esse tempo maluco
13. dizem que paulista gostar de falar do tempo
14. eu sou paulista
15. e estou falando do tempo
16. me enquadro então no modelo geral paulistano?
17. ui, que medo
18. agora está tudo escuro
19. e entrou um vento gelado demais no meu quarto
20. tem carros passando na rua
21. pessoas tirando um cochilo no sofá de casa
22. crianças andando de bicicleta
23. donas de casa fazendo doces, ou faxina
24. e nem parecem perceber as mudanças que estão acontecendo
25. talvez eu esteja só desocupada
26. e por isso dê importância a coisas que ninguém dá
27. mas como julgar a importância que as coisas tem para as pessoas?
28. é tudo relativo
29. agora o sol está brilhando de novo
30. e o tempo está tão abafado que sinto falta de ar
31. pelo menos o vento sossegou
32. o sol que as vezes aparece
33. secou todas as pistas no chão de que havia chovido
34. olha a nuvem de novo
35. mas pq eu me importo tanto com isso?
36. acho que é pq parece que meu coração tá mudando junto
37. é estranho, bem estranho
38. mas ao mesmo tempo esclarecedor
39. consigo ver tudo que acontece aqui dentro
40. passando do lado de fora ...

Débora Paixão