quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Oração do Amor Desacreditado

"Que Deus entenda o que se passa em mim por meio de tudo que ainda não vivi;
Que Ele nos coloque frente a frente e, vez ou outra, lado a lado, para que olhemos por outros ângulos, a fim de não perder nenhum detalhe;
Que eu possa sempre contar com seu sorriso, ou até mesmo metade dele no cantinho da sua boca;
Que eu sempre me delicie com o seu sotaque;
Que o nosso querer faça acontecer;
E que seja exatamente como a gente planejou;
E que se por algum motivo, algum plano não der certo conosco, que Deus tenha uma outra saída;
Que você perceba o que se passa comigo sem que eu precise dizer;
E que não comente nada, apenas sinta;
Que eu possa enfim acreditar no que dizes;
Que a distância não descarte as possibilidades;
E que não destrua a esperança;
Que a vontade não se perca com o tempo;
E que o tempo não demore tanto a passar;
(a não ser quando estivermos juntos, aí eu quero mesmo é que o tempo pare)
E que por fim, eu saiba esperar e confiar que tudo acontecerá no tempo certo, mas que aconteça;
E que este tempo seja todo nosso, cabendo somente a nós saber quanto vai durar.
Amém"

Débora Paixão

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O Tempo e o Vento sobre mim

Se quiseres saber sobre mim,
pergunte ao vento;
ele levou amores, amigos
idéias, planos, sentimentos...
Ficou só um pedaço de tudo em mim
e o resto foi sendo preenchido
com o passar do tempo.
Perguntar a este faz mais sentido.
Se bem que o passado
já passou há tanto tempo
que talvez ele se engane
ao falar do presente momento.
Some tudo que encontrar pelo caminho,
depois venha me mostrar o resultado;
mas ande logo, vê se não demora...
senão é capaz que eu tenha mudado
ou o vento me levado embora.

Débora Paixão

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Troço estranho

"parece essa tal saudade que falam
que eu nem sei donde vem
uma vontade sei lá de quê
uma série de emoções conflitantes
um querer expressar
e ao mesmo tempo calar
querer fazer e não ter pique
e tirar força para lutar
de um lugar que não conheço
sentir que tudo mudou
e desejar que tudo
volte a ser como era antes
ainda querendo que mude mais...
no comecinho eu bem achei que era doença
mas sei não, olhando de relance
isso me parece um bocado com amor"


Débora Paixão

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ao mar da mágoa

Enquanto canto
ao mar minhas dores,
minhas alegrias e amores
Todos os sabores passam
pelo meu paladar
Principalmente o amargo
que fica no fundo da garganta
Porque grito e arranho
Sangra ...
O doce na ponta da língua
está em dizer seu nome
em lembrar da sua figura
e ver minha imagem
refletida no seu olhar ...
Penso com infelicidade
na amargura que acompanha
meus passos, meus dias
e então a lembrança
traz novamente aquele gosto
amargo ...
E já não mais sinto pela boca
sinto em todo o corpo
e tudo vai amargando
amar ... amargar
a magoar ando

Débora Paixão

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Nuvem nada



Um dia essa nuvem deságua.
Um dia volta ao seu lugar.
A chuva é o retorno d'água
que cansou de evaporar...
O tempo está fechado,
mas eu decidi me abrir.
Só chuvas insistentes
é que gostam de cair...
Débora Paixão

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

não vale dizer que sabe tudo




Qual o preço das coisas que não foram ditas amontoadas em nó na garganta?

Quanto vale aquele gesto perdido quando já não havia mais nada a se fazer?

Qual o valor do silêncio quando a gente sente vontade de dizer o que não deve?

Quanto se paga pelo perdão que foi dado da boca para fora?

Como a gente sabe a medida da nossa força, sem submetê-la à prova?

Como achar as respostas para isso tudo, sem sensibilidade?
Débora Paixão

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Paulo Leminski em 40 linhas



01. Eu disse uma vez que já aprendi muita coisa na vida, mas esqueci a maioria ...
02. Mas do meu poeta preferido eu quero sempre lembrar.
03. Ele consegue ser crítico, cínico, ácido, engraçado, sarcástico, profundo, doce e brilhante, tudo ao mesmo tempo.
04. "Certezas o vento leva, só dúvidas ficam de pé" ... tão verdadeiro.
05. Sabe aquelas coisas que você sabe e sente, mas não expressa? Ele expressa.
06. Quando você lê, o peso é outro.
07. Ouço a voz dele me dizendo tantas coisas, como minha consciência.
08. "A noite enorme/ tudo dorme/ menos teu nome" ... tanto sentimento, em tão poucas palavras.
09. Hippie, tradutor, judoca, escritor, poeta, pai, marido, bêbado, etc...
10. Uma mistura louca de uma série de coisas que resultaram na essência mais surpreendentemente simples que já vi.
11. "Pelos caminhos que ando/ um dia vai ser/ só não sei quando"
12. "Não discuto com o destino, o que pintar eu assino"
13. "Para que cara feia? Na vida ninguém paga meia"
14. Esse conformismo, essa aceitação, ao mesmo tempo cética diante as certezas e crente no desconhecido, encantam.
15. Tantas coisas ele escreveu que me transformaram que:
se
nem
for
terra
se
trans
for
mar
16. E levo tanto dele em mim, dentro, que um dia estamparei na pele .. 'o mais fundo está sempre na superfície'
17. Eu tinha apenas um ano no ano de sua morte, e só depois de longos anos de sua partida aqui foi que entendi:
18. Lápide 1 - epitáfio para o corpo:
"Aqui jaz um poeta.
Nada deixou escrito
Este silêncio, acredito
São suas obras completas."
19. Lápide 2 - epitáfio para alma:
"Aqui jaz um artista.
Mestre em desastres
Viver com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
Deus tenha pena dos seus disfarces."
20. O que ele não sabia talvez é que morreria de cirrose hepática...
21. "Cinco bares, dez conhaques/ atravesso São Paulo/ dormindo dentro de um táxi"
22. Temos muitas coisas em comum ... rs
23. Me inspiro nele para escrever.
24. Acho que foram pouquíssimas as vezes, após tê-lo conhecido, que não pensei nele enquanto escrevia.
25. Talvez isso explique o quanto dele há no que escrevo.
26. "Quando escrevo versos
eles vêm assim
de costas, de frente
de mãos dadas
ou nem vêm.
A rima às vezes aparece,
outras nem também.
Um terço de tudo que escrevo
Fica, os dois outros
vão além ..."
27. Esse eu fiz para ele.
28. Já musicaram tantos poemas dele. Ele já participou de tantas composições. Teve tantas parcerias ...
29. Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Haroldo de Campos, entre tantos outros ...
30. "Nunca cometo o mesmo erro duas vezes, já cometo duas, três, quatro, cinco, seis ... até esse erro aprender que só o erro tem vez"
31. E quem não insiste em erros? Ninguém! E tá errado? ...
32. "Duas folhas na sandália, o outono também quer andar"
33. "Jardim da minha amiga/ todo mundo feliz/ até a formiga"
34. "Soprando este bambu, só tiro o que lhe deu o vento"
35. "Tarde de vento/ até as árvores/ querem vir para dentro"
36. É tanta sensibilidade, que qualquer tentativa de descrição se torna pesado demais, fica o silêncio.
37. "Sou propenso ao silêncio" foi o que disse e disse tantas coisas embora tenha morrido tão cedo ... mas perae ... morrer?
38. "não me toquem nessa dor/ ela é tudo que me sobra/ sofrer, vai ser minha última obra"
39. "moinho de versos/ movido a vento/ em noites de boemia/ vai vir o dia/ quando tudo que eu diga/ seja poesia"
40. "morrer faz bem à vista e ao baço/ melhora o ritmo do pulso/ e clareia a alma morrer de vez em quando/ é a única coisa que me acalma"

E faz 20 anos que ele foi embora, é o que alguns registros mostram, mas todas as palavras dispersas .. que viraram poesia, todo esse sofrimento e dor contidos, como se tudo que escrevesse fosse último, que por fim acalmou... mostram, para mim, que ele não morreu não sô, para mim ele tá andando por aí e vive cochichando no meu ouvido ...
Débora Paixão

domingo, 24 de janeiro de 2010

+ haicais

"tirei uma foto da rua
você apareceu no canto
no ato, revelei teu encanto"

"altas horas
baixa auto-estima
pausa para fazer rima"

"após noites mal dormidas
todos compram de manhã
sonhos de padaria"


Débora Paixão