segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A pureza crua de Carina





         Desta vez quando a vi, embora a tivesse visto já de tantas formas quanto a intimidade de uma amizade que transpassa duas décadas é capaz de mostrar, foi como se a olhasse outra.

Ela não tinha mais aquela roupagem pesada como quem serve de cabideiro para segurar provisoriamente roupas que já não servem mais aos donos e - por este motivo - acabavam abandonadas. Não que ela tenha mudado, ou se transformado, mas era como se tivesse enfim rompido certa casca, um invólucro que paradoxalmente não lhe protegia do mundo (tal como as larvas) protegia-lhe, sobretudo dos perigos de sua própria insegurança.

De casca rompida, estava tão pura - que de longe mesmo quem não a conhecesse notaria novidade pelo viço de sua nova pele. Essa camada externa reveladora de marcas que as pessoas diariamente se põem a tentar - em vão - esconder. Pronto! Cheguei ao ponto crucial da história que queria contar aqui. Apresentei-lhes ela: Carina. Com C. E com licença poética, já lhes explico antes que venham os questionamentos pela nova grafia de seu nome, simplesmente porque - embora eu saiba que pagarei alto preço de escolher ousar na grafia do nome de uma pessoa cujo sol brilha em virgem - enfim, esta forma me parece mais pura.

Quero antes de prosseguir, explicar também que esta pureza não se aplica ao sentido pueril, angelical, casto de vestido branco entrando enganada na igreja, mas a pureza do estado natural mais puro do ser que alcança a si, instintivo, animal e selvagem que já não se pode negar.

Carina estava para esta pureza tanto quanto o mar está para água, ou para plástico. Estava tão para fora quanto era dentro.

Vibrava em seus olhos, a calma de quem sabe que a fruta leva seu tempo para amadurecer. E não sendo possível alcançá-la nem com braços nem com vara, espera que ela se desprenda por si própria. O olhar conclusivo de quem por fim entende que a vida é isso. Às vezes mais, às vezes menos, mas geralmente a exata dose disso.

No entanto, ela parecia não saber da sabedoria que lhe exalavam os poros e pode ser que seja fruto da magia intrauterina que lhe acomete. O útero essa caixa mágica cuja vida brota ramificada de novos seres. Nunca é só uma vida brotando ali.

Agora sim! Quero falar sobre o encontro entre ela e eu. Duas amigas que já de tantos encontros tiveram este: mais um. Embora sempre, os mesmos nunca. Embora nunca os outros sempre. Tínhamos a ideia de estar, apenas. Permanecer e sermos. E fomos.

Eu não tenho essa sabedoria que Carina carrega agora, para todas as coisas, mas tinha para algumas. Eu tinha essa sabedoria para ela e isso foi proporcionalmente novo e corriqueiro. Eu já conhecia tudo isso, mas não tinha visto assim, exposto dessa forma. Não tinha visto Karina saber ver isto como eu via. E vi.

Não parecia cansada, embora o ventre crescido pesasse para frente e pudesse lhe doer as costas. Levanto a hipótese de que talvez agora este peso extra viesse equilibrar o peso dos ombros. As roupas, bem como a vida, nunca pareceram tão justas.

Meus olhos de reparar sutilezas, notaram com suavidade, essa amiga que a vida me trouxe e que de um jeito torto - mas que ela entende - eu amo e acredito saber cuidar. Meus olhos de reparar sutilezas estavam ali fitando Carina enquanto falava, como quem pára para apreciar uma flor e de repente, tem a sorte de presenciar o breve e mágico instante, do desprender de uma pétala. Foi assim que eu vi a pureza de Carina enquanto tomava um sorvete na praça de alimentação do shopping.

Olhando à nossa volta, tínhamos um bom cenário, alguns figurantes que cumpriam rigorosamente seus papéis. E nenhum deles poderia sequer imaginar a trama que o destino teceria para nos trazer até aqui.  Na verdade, nem a gente poderia. O fato é que ele trouxe e eu parei para reparar.

 

Débora Paixão 




à Karina, minha grande - e agora maior ainda - amiga.

sábado, 22 de junho de 2019

Eu tenho em mim um amor dos grandes

Eu tenho em mim um amor dos grandes
Mas é mal compreendido
Nem por isso ele murcha
Nem por isso o amor desanda
Meu amor é grande e imenso
E ele marcha pelas ruas
Não fica guardado a sete chaves
Ele é assim, meio arreganhado
Qualquer um pode ver
Muito embora poucos o entendam, coitado!
Mas por ser grande assim nem liga
Elogia desconhecido
Abraça sem intimidade nas vezes em que não se cabe
Ri aparentemente sozinho porque ele sabe
Que as coisas belas (mesmo as tristes)
Guardam sempre outro sorriso
Uns pra já, outros pra depois
Na verdade ele é grande porque foi se acumulando de outros
E segue se reconhecendo
O meu amor é tão grande que é pra sempre
Quando doeu, curou
Quando chorou, libertou
O meu amor é tão grande que o único jeito de ele ser é livre
E ele é de uma liberdade tão grande e de uma grandeza tão libertadora
Que já não pode ser meu
Nem seu
Só lhe cabe ser de si mesmo.

(Débora Paixão)

quinta-feira, 9 de maio de 2019

velas

"castiçais, caravelas
o fim ou o começo
com o vento se paga

o mesmo vento
que uma vela ajuda,
outra vela apaga"

- Débora Paixão



domingo, 6 de maio de 2018

nada nada

nada do que escrevo é meu
nem seu nem de ninguém
pode ser que nada do que escrevo
seja
e, por mim, tudo bem...

(Débora Paixão)

segunda-feira, 26 de março de 2018

Chato é ter certeza

Chato é ter certeza
Ser isso
Ser aquilo
Saber isso
Não saber
Ser aquilo
Não ser
Delícia é viver enquanto
Sem saber quanto
Sem saber quando
Sem saber por onde
Nem porquê
Bom mesmo é viver
Viver e pronto
E viver sendo
Sem sequer talvez ser
Viver desconhecendo
Gozar na indecisão
Sem pressão
Nem pretensão
Sem tensão
Bom é viver gozando
O perpétuo instante
Do tesão

Débora Paixão

sábado, 3 de março de 2018

Mutação Genética

Fui feita pra não sujar
E por ironia - ou mero gozo do destino -
Afundei os pés na lama
Já lavei minhas mãos de sangue
Ainda que tenha sido o meu
Não sabia até então
Que logo o vermelho teria gosto de mel
Mamãe olha triste
Pensa onde errou
Se faltou sabão pra me lavar a boca
Papai não se dá o trabalho
E eu me lavo na chuva
Só para deitar na cama
Com cheiro de cachorro molhado

(Débora Paixão)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Impressões do tempo e do vazio



Altos e baixos. Férias na casa do meu vô, aqui em Vista Alegre, é assim... Um dia cheio de função, gente entrando e saindo da casa toda hora. Crianças (e adultos) entrando com o chinelo cheio de barro, deixando as tias enlouquecidas. O chão não para limpo, a pia não para vazia...
No outro dia, porém, tudo para. O vazio. Ninguém vem. Só o sono. Vai e vem toda hora. Cochila, acorda, anda até ali e volta pra cochilar mais um bocado. Às vezes aparece alguém procurando alguém e não acha.
Tem dia que até cachorro latindo é um evento. Galinhas seguem sendo galinhas, cacarejando por aí e patos seguem sendo patos, a cagar por tudo quanto é canto.
Nesses dias, minha natureza melancólica potencializa. Fico pensando de pensar em pensamentos que tive e por qual motivo. 
Olho os retratos na parede, os buracos do chão, os amarelados, as rachaduras. Uma parte minha que viveu aqui quando ainda tinha outras cores e sons acorda procurando pelo que havia, pelo que ouvia. A vó gritando "Mariiiia"; outra, que sequer viveu no tempo das fotos, fica sentindo que perdeu alguma coisa.
A cabeça fica transitando entre tempos que foram e não foram meus e histórias que mesmo não sendo minhas, se fizeram.
Hoje, sentada num sofá e meu vô, deitado noutro, perguntei: - Vô, como é pra você estar com 90 anos? Ele respondeu: - Passou rápido né? Eu panhava leite ali em cima, com carro de boi e já faz 70 anos.
E eu aqui passando um dia que às vezes parece durar uma semana. Ele, uma vida, nesse ritmo. Lento. Com muito tempo. Depressa.
Não sei que pressa é essa que a gente se acostuma a sentir.
Olhei pra ele e notei, com ternura, quantas rugas sua pele ganhou no último ano. O quanto alguns hábitos foram deixados de lado.
A horta que ninguém podia por a mão, ficando pra amanhã. O barbeiro de toda terça e sábado sendo remarcado por esquecimento.
O vazio às vezes é voraz. Tanto é que mastiga, engole o tempo. Passa a ser ele o protagonista. 90 anos. 
Ei, tempo! Desacelera. 
A casa enche, esvazia. O tempo passa, para, corre, fica. 
Meu vô e eu estamos sentados na mesma sala, o tempo passa e para pra cada um. Pelos olhos dele a casa enche, esvazia, grita, silencia, suja, limpa. De repente. Passou. Independentemente se ele senta ou levanta. Se quer ou não. E os olhos dele se movem, a boca silencia porque nada se opõe. O corpo fica. Mas tudo o sente imóvel sob os móveis da sala, ou do quarto, ou da cozinha.
A casa racha, quebra, amarela, remenda.
O tempo não. Ele não volta, não conserta, não adianta. O tempo não muda. A vida sim, as prioridades, as pessoas, até as paredes. As nossas impressões mudam. As nossas impressões mudam o tempo todo. Elas mudam o tempo.
Por hoje ainda arrisco que a única coisa que o tempo muda são as nossas impressões... sobre o mundo, a vida, os lugares, as coisas e ele mesmo. Das duas uma, ou isso é verdade, ou não passa de impressão minha.

Débora Paixão

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Mar



O mar se espalha sobre as pedras
Se esparrama em reverência a todo o resto do mundo
Eu, simples sujeito, o reverencio.

O mar canta sua melodia espumada
Gotejando, chovendo, se expandindo
Enquanto eu me silencio.

O mar me causa indefinições
Tão profundo e tão superfície.

Mas quando o mar se desenrola
Em uma onda que me parece lamber os pés
Eu sei o que somos!

Mesmo sem poder dar nome...

(Débora Paixão)