domingo, 28 de fevereiro de 2021

Sob a luz do olhar de Lurdes

Passou a ver a vida de olhos fechados
pois assim podia ver colorido
As cores que foram desbotando dos olhos
tornaram o viver escuro
e dolorido

Pedia a Deus, todos os dias
que o brilho e os tons voltassem
Não quis dizer adeus às luzes
e, rebelde, abria os olhos a esperar
que brilhassem

Não mais via cor
Tampouco encontrava alegria
esta estava guardada
na imagem das coisas
todas - que ela já conhecia

(Débora Paixão)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

se desse, descia

Se desse a palavra seria lida
falada, linda, farta, folheada, finda
A palavra lavra a terra da língua
A língua sibila as sílabas da fala
A fala não diz nada e nada abala
A bala encosta na língua que saliva
Da língua se sente o gosto da coisa viva
O dente macera a palavra dura
Qualquer coisa que seja palavra
Nunca fica madura
A língua é só uma passagem da fala
Nada mora, tudo molha, quase esfola:
A linguagem.
Palavra presa na garganta não se adianta
e não se move
Mais serve à ferida que cresce
Do que ao sentido que morre
Serve ainda mais ao muco que escorre
Palavra perdida na língua apodrece
A língua partida corta a palavra ao meio
Mas não a esquece
Bebe água em minimalista prece:
Palavra, ou sai ou desce!


- Débora Paixão

sábado, 20 de fevereiro de 2021

O que vem antes do quê



imagem: @goldenfart in weheartit.com



Vejo suas mãos enquanto fala
E fico a imaginar que me cabem exatamente.
Então esconda-as! ponha-as em qualquer lugar
Fora do meu alcance, por favor!
As palavras que diz já não tem som,
Muito menos sentido.
O que pensa enquanto fala?
Acaso acha que te entendo?
Tudo em mim borbulhando,
Efervescendo e você a falar ,
A falar até não poder mais...
Meu Deus! Aquieta os lábios
E os aproxime dos meus!
Deixe que as nossas línguas
Conversem sozinhas.
Elas têm idioma próprio
(Mas usam outros sotaques)
Veja, já nem estou mais a falar das mãos.
Entende o que me acomete?
Quando você fala comigo
Ou apenas fala
Eu te compreendo muito além
Do que poderia explicar
Qualquer palavra.

Débora Paixão.

P

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

AVISO

Chamaram-me poetisa.

Não procurei saber quem,

Tampouco de onde veio

A mania de por gênero

Em matéria de espírito.

SOU POETA!

Exclamo porque acredito.


(Débora Paixão)




terça-feira, 24 de novembro de 2020

passarinho que sabe




















(imagem: pinterest.com/nanafernandes58)

se você me disser que vale a pena
então eu já nem escuto mais nada
sequer os passarinhos
por isso não me diga

palavras se perdem no tempo
e no vazio do espaço
passarinho é que sabe para onde voa
e porque canta


(Débora Paixão)


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

ar

ainda ontem uma lagarta 
na ocasião de virar crisálida
me fez chorar
às vezes como ontem
penso em como tudo me emociona
o triste
o trivial
os detalhes...

as coisas aparentemente impenetráveis
me emocionam pela insistente resistência
de suas couraças

penso em tudo quanto é coisa 
que me emociona transbordando os olhos
e deixando a alma no aspecto sedoso
das pétalas...

um ninho
um desafino
um raio de sol que escapa no dia em o céu está encapado de nuvens

sinto-me por vezes
como um traço que saiu errado
porque a ideia quis que ele fosse lá
e o traço - sendo ele dono de si mesmo -
veio cá

por outras todas vezes
não me reconheço neste mundo
é como se tudo estivesse tanto
e eu sem fazer questão.
o sentido é coisa relativa
ora vem seguido de lógica
ora puramente coração.

eu sinto - através dos poros -
as asperezas das palavras e
o peso quase plumático do silêncio,
como estrelas que dormem
e mantém o brilho aceso.

voar pelos meus olhos
é desprender tudo que já esteve
já deu
passou
foi-se o tempo de ser em algo

estar em voo 
é estar em tempo de ser por si mesmo
a qualquer instante
pelo tempo que baste

não ver as coisas desta forma
é para mim ter na alma certa gravidade
que a deixa encostada no chão

eu por mim
fico com o ar

e com as asas




- Deboar Paixão

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

tenho costume de botar bastante reparo nas coisas...

Tenho costume de botar bastante reparo nas coisas de fora, mas quando reparo nas reparâncias do outro, sinto que alguém me viu de dentro.

(Débora Paixão)

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

como o ar

não ouço as vozes de nada
nem de ninguém
mas sinto
porque preciso e sei apenas sentir
sinto as vozes como se as visse
não com os olhos
mas com todo o resto
a poesia tem voltado a mim
não porque eu quisesse
embora sim e muito
mas porque eu precisava
e eu 
a encontro não quando quero
encontro
e vejo
e ouço
e sinto
tão apenas quando preciso

...

(Débora Paixão)