domingo, 20 de novembro de 2022

tapeçaria

meu passado é uma tapeçaria grossa
mas fajuta
toda linha que teceu minha trama
teve em si uma mentira
uma lágrima
e uma maldade requintada
dos males que tramei
fui a única atingida
poeira fina de maldade 
sob minha tapeçaria
os males que fiz aos outros mal sabem
porque antes eles me fizeram mal sem saber 
eu não queria me vingar
só segui tramando a partir do ponto que deixaram em minhas mãos
o meu passado é uma tapeçaria grossa
que esconde as memórias mais terríveis
mas como é fajuta
permite que memórias escapem pelos buracos
tem tantos rombos no meu passado
mas é uma tapeçaria
por baixo dela
entre as poeiras
esconde-se o futuro inevitável
nada faço além de colecionar passados
deixo o presente passar
passivo
incapaz de qualquer gesto 


Débora Paixão
@tudoqueficanoar

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

sê semente


há bastante poesia no modo como as sementes nos falam sobre a vida

dentro de cada uma delas dorme um segredo
que só é revelado quando se planta
aí se sabe: é ou não é

e é melhor saber de uma vez
que de uma semente de miosótis não nascerá girassol
quiçá miosótis nasça

para saber se a semente é boa
é preciso lançá-la sobre a terra;
deixar que seu segredo desperte;
sossegar a agonia da espera;
e contemplar a certeza que o tempo traz!

numa gaveta escura não nascerá flores
tampouco sonhos poderão brotar
em terreno seco e sem luz

é preciso deixar que chova sobre a superfície
que a pele do corpo e da terra suguem a vida contida na água
que o calor do sol aqueça e transforme a vida encapsulada

segredos aguardam o despertar
sonhos aguardam
mas exigem condições
dê a eles tudo que precisam

úmida
a terra é mais disposta
a sementes

como as emoções
aos olhos que se deixam molhar


- Débora Paixão
@tudoqueficanoar
@debpaixao

domingo, 6 de junho de 2021

estão livres minhas mãos

estão livres minhas mãos para dizer
- mais que isso:
meu silêncio está livre para não ser
nas mãos que escrevem
o que a boca não diz
negar todas as partes que possuo
é a liberdade que fere
e alivia meu dia a dia
assumir o risco de não ser quem preciso
e ser capaz de ser apenas quem sou
ou ser apenas o que eu quero
incluindo não ser 
é o que me torna eu
nas minhas palavras encontro
todas as minhas saídas
e só quando saio de mim
percebo o tamanho que tenho

- Débora Paixão
@debpaixao
@tudoqueficanoar

terça-feira, 27 de abril de 2021

você
era preciso uma palavra
para começar este poema
poderia ser qualquer outra
mas não
tive de escolher você
aqui no meio também
este poema te viu
passar por cima de mim, 
me anulando ou
me revestindo
pouco importa
no fim,
tudo que acaba comigo
também tem a ver com
você

Débora Paixão


terça-feira, 13 de abril de 2021

meu medo é não e sim

meu medo não é ficar presa por mais um ano em casa
comigo e com os móveis no mesmo lugar
meu medo é sair de casa e constatar
que o mundo está como está
meu medo maior é ficar presa à esta história
que compartilho com pessoas que parecem viver
numa realidade que não contempla sequer as minhas dores
quem dirá as do mundo
então, encaro um medo que sempre tive
mas que ao olhar a vida ficou tão pequeno que pensei não existir
e 
salto 
no
abismo
infinito
de
quem
sou
sentindo o desespero de não encontrar uma mão para dar a minha
ou de encontrar mais um olhar que não me vê
planar sobre a agonia de um passeio sem fim
e cair
calma!
(lembrar também de respirar enquanto caio em mim)
meu medo não é alcançar o chão
meu medo é cair no chão desde mundo
e depois de tudo
da queda
da quebra da casca
da armadura
da estrutura óssea
eu ainda ser sustentada pela mesma matéria
indissolúvel, indestrutível
que não me deixa ser indiferente ao mundo
e novamente sentir
medo
ao ver que este mundo ainda é o mesmo

- Débora Paixão

terça-feira, 23 de março de 2021

cismo

Somos a beira do abismo
Algo entre a verdade
e o cinismo

Viver é estar
a um passo do chão
ou em pura contemplação
do achismo

- Débora Paixão

domingo, 21 de março de 2021

A estranha que se mudou para minha casa

Aconteceu há aproximadamente 3 meses. Não sei dizer ao certo como aconteceu, mas de repente era isso. Eu sozinha em casa com uma estranha. E esta estranha me olhava todos os dias como a questionar-me: “o que faz aqui?”. Esta estranha que entrou em minha casa sem sequer ser convidada. Uma estranha cujo tamanho cabe minhas roupas. Uma estranha cuja voz me arrepiava. Não era uma estranha qualquer, como as pessoas estranhas que encontramos todos os dias na rua. Era uma estranha com mais carne que o comum, com mais presença que a própria matéria do corpo, com mais dentes do que cabem numa boca, com mais sombra que os móveis da minha casa. Essa estranha me olhava todos os dias, de propósito, de dentro, só para me deixar sem jeito e sem lugar. Ela se sentava no sofá junto comigo, se servia da minha comida e ainda era capaz de reclamar. Torcia o bico, revirava os olhos e exprimia qualquer gemido baixo o bastante para que eu não pudesse identificar e alto o suficiente para me fazer pensar em arremessar qualquer objeto em sua direção. Um copo, uma tampa de panela, uma colher de pau. O micro-ondas. A cada dia que passava eu me sentia mais sufocada. Ela parecia crescer dentro de casa e sua presença já não ocupava somente o sofá ou a cadeira ao lado. Seu corpo de mais carne que o comum, mais presença que a matéria do próprio corpo era capaz de ocupar a sala inteira. Era como se a sala se tornasse o corpo da estranha e era capaz de consumir todo meu oxigênio. Cheguei ao ponto de andar esgueirando-me em meu próprio apartamento para não ter de encostá-la, para não encontrá-la, mas por onde eu fosse, lá estava ela. Era preciso que eu fizesse algo a respeito. Entretanto, sempre que me levantava decidida a enfrentá-la, era tomada por pensamentos paralisantes e, imóvel, eu podia ouvir tais pensamentos tão dentro do ouvido quanto o absurdo que me locava: “Ela irá te engolir com sua boca cheia de dentes”. E todas as noites, enquanto me deitava ao seu lado, porque ela era incapaz de se retirar, eu me cobrava internamente: por que não consigo dirigir-lhe a palavra? Por que é que eu permito que me olhe todos os dias? Por dentro? Ela parecia buscar em mim algum resquício. Era como se ela precisasse de confirmação. Eu fechava meus olhos com força como a pedir que a escuridão de dentro apagasse tudo de vez e então eu adormecia. Até que ela passou a me encontrar em sonhos. Sua imagem estava colando-se em mim. E eu já não podia mais me livrar dessa estranha. Ela me vestia como uma fantasia e meu eu perdido em sua carne gritava por socorro, mas ninguém ouvia.

Ninguém!

Acordei desesperada e corri para olhar-me no espelho. E para o meu espanto, lá estava ela. Esfreguei meu rosto com sabão, enxaguei e lavei e enxaguei de novo. Três vezes. E ela ainda estava lá. Roubando-me de mim. Ela vestiu meu corpo com sua pele e meu sorriso com sua dentadura cheia de dentes. Me forçava a querer sorrir para o espelho enquanto dentro, o meu eu, gritava a pedir ajuda sem sequer poder chorar. Não havia lágrimas neste novo corpo. Um corpo cuja existência não pode ser confirmada pelo olhar do outro. Um corpo que não teve a chance de pertencer a algum lugar senão outro corpo dentro de uma mesma casa de onde não se saia por mais de 3 meses. Parada frente ao espelho vi aquela arcada dentária sorrir um sorriso que eu não queria numa boca que estava em mim, mas não era minha. Meus olhos estavam ocos de brilho, de presença e vida. Eram olhos estranhos que não viam outros olhos além dos meus no espelho. Sua imagem me aterrorizava como uma fratura exposta. Era minha existência fraturada, cindida em duas partes. Dentro e fora ali, ocupando o mesmo lugar. Ambos sem vida. Tentei lavar meu rosto pela décima quinta vez, mas a cada esfregada, eu me encontrava mais vazia. Era preciso que eu aceitasse que me fora ordenada esta nova condição: que ela agora era eu. Ou que agora eu era esta pessoa que nunca pertenceu a lugar algum, nem ao mundo nem ao próprio corpo. Vazia de sentido e carente de lugar. Eu não posso ser esta imagem descolada, dissociada da minha história, das minhas dores e alegrias. Dores, quando foi a última vez que algo doeu? Alegria, não sei se lembro... A imagem do espelho me assumia e me assustava como o vento entre as frestas da janela em dias de tempestade. A imagem que vejo me arrepia, me dá náuseas. Habita meu rosto e domina minha voz. E era ao mesmo tempo apenas o reflexo de uma casca oca. Não me reconheço em mim, na minha forma física de sempre e não mudei fisicamente. Peso o mesmo peso, uso a mesma boca, tenho a mesma cara, a mesma pele, entretanto não sou eu. Como, frente a isso, poderei saber que ainda existo? Como viver a agonia de não saber se será possível resgatar a vida que um dia morou aqui, com rosto e voz e tudo? Hoje uma estranha me assola, me coloca frente ao espelho, mexe a minha boca como se falasse, mas seu ritmo tem um atraso incompreensível! As palavras que me saem da boca, mexem na boca estranha. E eu? Já não sei se sou nem se posso. O que sei é que já não sinto. Antes de sentir é preciso ser e ser estranha a mim é não ser mais humana, é ser qualquer outra coisa, é muito mais coisa que ser. Se sou coisa, precisaria mudar o verbo, pois coisa não é capaz de ser. Coisa não é. É Isto! Resolvido o enigma da estranha que me aflige: não sou! Então, Isto não poderia ser nem sentir nem querer. Mas, de algum modo estranhamente absurdo, ainda sinto que quero algo. O que me torna ainda mais indefinível, incompreensível. Talvez não seja querer, talvez precisar... Já não há mais por onde perder-me nem por onde me encontrar. No entanto, há em mim algo que resiste, incólume, à espera da reintegração, do pertencimento completo, do encontro; e este algo, esta parte, recusa a casca oca e a dentadura, evita o espelho. Até que se descubra corpo ou apenas reflexo para poder dizer então, que enfim... é.
 
Débora Paixão


domingo, 28 de fevereiro de 2021

Sob a luz do olhar de Lurdes

Passou a ver a vida de olhos fechados
pois assim podia ver colorido
As cores que foram desbotando dos olhos
tornaram o viver escuro
e dolorido

Pedia a Deus, todos os dias
que o brilho e os tons voltassem
Não quis dizer adeus às luzes
e, rebelde, abria os olhos a esperar
que brilhassem

Não mais via cor
Tampouco encontrava alegria
esta estava guardada
na imagem das coisas
todas - que ela já conhecia

(Débora Paixão)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

se desse, descia

Se desse a palavra seria lida
falada, linda, farta, folheada, finda
A palavra lavra a terra da língua
A língua sibila as sílabas da fala
A fala não diz nada e nada abala
A bala encosta na língua que saliva
Da língua se sente o gosto da coisa viva
O dente macera a palavra dura
Qualquer coisa que seja palavra
Nunca fica madura
A língua é só uma passagem da fala
Nada mora, tudo molha, quase esfola:
A linguagem.
Palavra presa na garganta não se adianta
e não se move
Mais serve à ferida que cresce
Do que ao sentido que morre
Serve ainda mais ao muco que escorre
Palavra perdida na língua apodrece
A língua partida corta a palavra ao meio
Mas não a esquece
Bebe água em minimalista prece:
Palavra, ou sai ou desce!


- Débora Paixão

sábado, 20 de fevereiro de 2021

O que vem antes do quê



imagem: @goldenfart in weheartit.com



Vejo suas mãos enquanto fala
E fico a imaginar que me cabem exatamente.
Então esconda-as! ponha-as em qualquer lugar
Fora do meu alcance, por favor!
As palavras que diz já não tem som,
Muito menos sentido.
O que pensa enquanto fala?
Acaso acha que te entendo?
Tudo em mim borbulhando,
Efervescendo e você a falar ,
A falar até não poder mais...
Meu Deus! Aquieta os lábios
E os aproxime dos meus!
Deixe que as nossas línguas
Conversem sozinhas.
Elas têm idioma próprio
(Mas usam outros sotaques)
Veja, já nem estou mais a falar das mãos.
Entende o que me acomete?
Quando você fala comigo
Ou apenas fala
Eu te compreendo muito além
Do que poderia explicar
Qualquer palavra.

Débora Paixão.

P

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

AVISO

Chamaram-me poetisa.

Não procurei saber quem,

Tampouco de onde veio

A mania de por gênero

Em matéria de espírito.

SOU POETA!

Exclamo porque acredito.


(Débora Paixão)




terça-feira, 24 de novembro de 2020

passarinho que sabe




















(imagem: pinterest.com/nanafernandes58)

se você me disser que vale a pena
então eu já nem escuto mais nada
sequer os passarinhos
por isso não me diga

palavras se perdem no tempo
e no vazio do espaço
passarinho é que sabe para onde voa
e porque canta


(Débora Paixão)


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

ar

ainda ontem uma lagarta 
na ocasião de virar crisálida
me fez chorar
às vezes como ontem
penso em como tudo me emociona
o triste
o trivial
os detalhes...

as coisas aparentemente impenetráveis
me emocionam pela insistente resistência
de suas couraças

penso em tudo quanto é coisa 
que me emociona transbordando os olhos
e deixando a alma no aspecto sedoso
das pétalas...

um ninho
um desafino
um raio de sol que escapa no dia em o céu está encapado de nuvens

sinto-me por vezes
como um traço que saiu errado
porque a ideia quis que ele fosse lá
e o traço - sendo ele dono de si mesmo -
veio cá

por outras todas vezes
não me reconheço neste mundo
é como se tudo estivesse tanto
e eu sem fazer questão.
o sentido é coisa relativa
ora vem seguido de lógica
ora puramente coração.

eu sinto - através dos poros -
as asperezas das palavras e
o peso quase plumático do silêncio,
como estrelas que dormem
e mantém o brilho aceso.

voar pelos meus olhos
é desprender tudo que já esteve
já deu
passou
foi-se o tempo de ser em algo

estar em voo 
é estar em tempo de ser por si mesmo
a qualquer instante
pelo tempo que baste

não ver as coisas desta forma
é para mim ter na alma certa gravidade
que a deixa encostada no chão

eu por mim
fico com o ar

e com as asas




- Deboar Paixão

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

tenho costume de botar bastante reparo nas coisas...

Tenho costume de botar bastante reparo nas coisas de fora, mas quando reparo nas reparâncias do outro, sinto que alguém me viu de dentro.

(Débora Paixão)

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

como o ar

não ouço as vozes de nada
nem de ninguém
mas sinto
porque preciso e sei apenas sentir
sinto as vozes como se as visse
não com os olhos
mas com todo o resto
a poesia tem voltado a mim
não porque eu quisesse
embora sim e muito
mas porque eu precisava
e eu 
a encontro não quando quero
encontro
e vejo
e ouço
e sinto
tão apenas quando preciso

...

(Débora Paixão)

terça-feira, 14 de julho de 2020

Domingo

Domingo
Não importa qual
A comida é sempre a mesma
Todos na sala comendo
Até que alguém se lembra de algum causo engraçado
E todos riem
De repente alguém faz um comentário distraído
E inevitavelmente, a casa fica cheia de saudade...
Quando todos vão embora
Vão mais completos do que chegaram
Ainda que sintam ter deixado alguma coisa para trás...
Quando se encontra a família
Não se encontram apenas pessoas
Se encontram lembranças
O cheiro da casa
O jeito de quem já foi em alguém que ficou
As roupas passadas de geração em geração
A cada encontro vão se criando novas memórias
E se encontrando novas pessoas
Porque família nunca para de crescer
Se une, reforma
Muda de aparência
Mas nunca deixa de ser o que é
Um eterno lugar de encontro
Entre pessoas e memórias
Que não nos deixam esquecer quem somos
Nem como chegamos até aqui

por Débora Paixão

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Em ponto


Quando usei o primeiro ponto ele indicava o final quê?
Que fim levaria a fase se o ponto trouxesse também a vírgula?
E quando usei dois, que disse?
Se usei três deles, esperava o quê?
Que me dissessem em outras linhas... travessão?
Quantas margens atravessei?
Exclamei a beleza! Adverti o perigo!
Interrogam-me, enquanto a vida questionei
Quantas vezes estive entre vírgulas?
Aposto que mais estive entre aspas e não notei
Quantas vezes me pontuaram e quantas outras pontuei?
Quando foi que minha vida se mediu por métricas?
Seria minha vida uma história em soneto?
Seriam ricas minhas rimas?
Que sei?
Nem sei em que tempo escrevo agora
Se é pretérito desfeito
Se era presente do desatino
Olhando pra frente me vejo
Querendo saber mais como do que porquê
Passei do ponto
Olhei os sinais













Vem outro parágrafo


por Débora Paixão

domingo, 10 de maio de 2020

Maneira de Pão



Aqui em casa, todos os dias a gente come pão. De todos os tipos. Mas o francês é, sem dúvidas, o preferido. Ontem, minha mãe e eu nos aventuramos a fazer pão. Mais especificamente o pão francês. Eu, que nunca tive muita habilidade com massas, participei como mera espectadora. Queria aprender a habilidade de mexer na massa através dos olhos. Tive medo de desandar. Minha mãe não tem esse medo, minha vó também não tinha. Acho que para ser mãe talvez não se possa ter medo. Vai ver que ao se tornarem mães elas adquirem também a habilidade de disfarçá-los. Olhava para minha mãe e suas mãos incorporavam os ingredientes uns aos outros com a mesma certeza de quem sabe quem sabe que é melhor levar uma blusa porque vai esfriar. Quando olhava as mãos de minha mãe, via as mãos de minha avó. Ela disse: "vai menina, bota essa farinha sem medo". Pude ouvir minha vó em sua fala. Talvez a gente incorpore à nossa matéria os ingredientes de nossas mães. Talvez seja pelas suas mãos que a gente tome forma, desde cedo, no cuidado, no embalo, nas trocas. Enquanto mãe, mãos e massa descasavam, fiquei pensando nessa maneira de ser pão. Nesse exercício de paciência de deixar a massa crescer. É necessária a espera. É necessário o descanso. Embora uma parte não descanse nunca. Talvez mãe seja mais como o fermento que continua seu trabalho enquanto tudo descansa. Quando já tava bom de descansar as massas já boleadas, com a ajuda de um rolo de madeira se esticaram para poderem, mais tarde se enrolar e virar esse trenzinho lindo que é um pão francês, mas antes de assar: o corte. A faca precisa estar bem afiada, o corte precisa ser preciso. Como um bisturi. Dali, do corte, nasce o aspecto de pãozinho. O pão precisa do corte, tanto quanto eu precisei. Um corte preciso de bisturi no ventre esticado da minha mãe. Então afiei bem a faca para cortar a massa. Que alegria foi ver a massa se rasgar e tomar o aspecto de pão instantaneamente! Era um nascimento! Os olhares, meu e da minha mãe, eram de duas crianças que espiavam uma cena daquelas que dão vontade de bater palma e dar gritinhos de euforia. A gente precisava disso e o pão precisava do corte para poder criar aquela casquinha, característica típica de pão francês. Mães também precisam dessa casca. Talvez seja essa a casca que esconda o medo que a gente, de fora, não vê. O pão dentro do forno e a casa cheia do pão. O cheiro de pão, assim como o de café, é pura poesia. Já é uma explicação em si mesmo. O pão assou e não ficou do jeito que a gente queria. Esse é o problema de se criar expectativa. Mas por mais que tenhamos errado no tamanho, ou na quantidade de farinha, fez-se pão, de todo jeito. Tinha cheiro, tinha jeito e gosto de pão. Talvez eu não tenha crescido exatamente como minha mãe queria, mas cresci e fiz de mim o que sou. Pelas mãos e os ingredientes que minha mãe incorporou em mim. Depois dessa experiência, tenho certeza que comer pão nunca mais será a mesma coisa.


 por Débora Paixão,

dedicado a minha mãe Maria Luiza 
e todas as outras mães que nos trouxeram até aqui.

terça-feira, 31 de março de 2020

Olhar apassarinhado

(ao Manoel de Barros, quando finalmente virou passarinho)

No dia em que ele se foi daqui
Um passarinho me atravessou o olho por dentro
Eu fiquei vendo tudo apassarinhado
No oco do meu olho de dentro
O mundo de fora espiava o vento
De dentro da minha cabeça
Minhocas e borboletas valsavam pensando se era chegada a hora de voar rastejante pelas raízes do meu tronco

(Débora Paixão, de dentro do oco da minha árvore)


sábado, 22 de fevereiro de 2020

Dias assim

Em dias como esse meu coração fica alternando entre o que eu queria que não fosse e que não fosse o que eu queria Eu sei bem o que quero É que dias como hoje em que olho para os lados e vejo tanto vazio nenhum vazio parece maior que o de dentro Tem um vazio tão grande nos outros que chega a ecoar com o meu Somos tão completamente vazios que não sobra espaço para sermos outra coisa E eu penso em como seria se fôssemos todos feitos de alguma matéria bonita como nada que fora criado ou tenha existido até hoje E aí me lembro que há vazio demais para eu poder pensar sobre algo que não existe Fôssemos feitos dessa matéria seria estranho pois nada entenderíamos de sua beleza ou necessidades e acabaríamos deixando-a morrer às mínguas Não seria justo com o amanhã nem com o hoje que fôssemos mais do que somos Eu quero que a vida se estenda bonita de um jeito de pensar por si própria porque daqui de dentro a vida não tem porquê nem por onde A vida só tem existido mas ainda não é E a vida precisa ser.

(Débora Paixão)