terça-feira, 29 de outubro de 2013

Há muito me emociono


há muito que me emociono
não fosse o espanto traumático
da minha vinda ao mundo
lembraria inclusive do meu primeiro pranto
emociono porque respiro
e o ar que me entra pelas narinas
traz lembranças de todo o sofrimento que há no mundo
dos amores e das cores que o vento espalha
enquanto sopra pelas árvores, pelos galhos, pelas folhas
emociono porque a chuva que cai, canta
e canta o choro da nossa incredulidade
que se cala ao notar esta mesma chuva
ao vê-la tocar o chão e transformar a vida
fazendo florir o improvável dos corações endurecidos
há muito que me emociono
porque a vida me toca a pele a pedir que a abrace
como quem abraça sua mãe e não quer largar
porque a vida tem em seu segundo
o instante eterno de um breve sorriso retribuído
emociono porque a vida me traz sorrisos 
que me sorriem mesmo quando não quero
porque por mais que eu tente endurecer
amoleço e desmorono com o vento e seus efeitos
e ainda que o corpo sofra com o tempo
e traga suas marcas, eu trago o ar em meus pulmões
e consigo enchê-los da lembrança disso tudo
e ainda posso, graças a Deus, expirá-lo em poesia
enquanto eu puder fazê-los, então vivo
vivo e me emociono.

- Débora Paixão