terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Mar



O mar se espalha sobre as pedras
Se esparrama em reverência a todo o resto do mundo
Eu, simples sujeito, o reverencio.

O mar canta sua melodia espumada
Gotejando, chovendo, se expandindo
Enquanto eu me silencio.

O mar me causa indefinições
Tão profundo e tão superfície.

Mas quando o mar se desenrola
Em uma onda que me parece lamber os pés
Eu sei o que somos!

Mesmo sem poder dar nome...

(Débora Paixão)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Desapegar é preciso


Três vezes ao ano, aproximadamente, eu desapego das roupas que me cansam, que só ocupam espaço. Algumas roupas são mais fáceis. Outras parecem trazer consigo tanta história que acabo deixando pra próxima vez. E a próxima vez às vezes fica também para a próxima e nessa brincadeira, aquela história fica presa a mim por anos. Quero dizer, aquela roupa. Estou falando apenas de roupas. Quero que isso fique bem claro, porque pessoas a gente não descarta assim. Quero dizer histórias, não pessoas. Calma! Respira! 
Como que a gente faz pra se desfazer de algo que cuidamos tão bem e protegemos tão bem que sequer usamos? Deixamos lá tão bem guardadinhas as histórias. Roupas! Tão bem guardadas sem usar que o tempo vai lá e acaba usando. Amarelando. E as histórias vão perdendo as cores que tinham, os cheiros, a graça, o sentido. Aí acontece de a gente não lembrar mais o porquê de ter guardado tanta coisa por tanto tempo...
Não me servem mais, embora muitas ainda caibam. Mas serviriam a alguém? Afinal, continuam sendo roupas e como toda roupa, mesmo as velhas, estão sujeitas a ficarem mais bonitas, quando usadas por outra pessoa. Porque quem recebe uma roupa velha ou usada, recebe como nova em suas mãos e os seus olhos e seus sentidos voltam-se para aquela peça e enxergam uma possibilidade. Isso dá medo, não dá? Lidar com as inúmeras possibilidades alheias em algo que já não podemos insistir em manter, mesmo que em segredo. Me deu medo, mas deixei passar.
Hoje, peguei algumas peças e me despedi. Passei pra frente, passei da fase. Segui. Junto delas foram-se algumas histórias e pessoas, confesso. E estou estranhamente tranquila. Roupas novas se eu precisar, eu compro. Já as boas novas, as novas histórias e as boas pessoas a vida me traz de graça. E estas, graças a Deus, eu posso guardar para sempre.


Débora Paixão

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Amanhã seria

O dia amanheceu como se houvesse dúvida
Não sabia o sol se acordava
Ou se a noite não dormia
Meu coração ficou alternando uma melodia de chuva
Há tempos dentro de mim alguma coisa chovia
Alguma coisa que plantei ao pé do seu ouvido
Mas eu não sabia
Talvez no seu pescoço meu fôlego tenha se perdido
E nele ficou esquecido de vez
Pode ser o ar que me falta quando o dia amanhecesse assim
Como se amanhecesse em talvez...

Débora Paixão

terça-feira, 7 de junho de 2016

Vi(n)da para somar

Naquele lugar ali
Bem ali, se via um rio
E nele, a navegar ela vinha
Devagar
Desaguando no mar da vida
- e só Alice sabia

Bem ali, se via Ana
Dali se podia ver
Ela para a vida sorrindo
A vida pra ela a se abrir
Mais uma vida bem vinda
E o mundo de volta a lhe sorrir

Mas o que viria Ana a ser
Depois de tanto esperar?

Se Ana de água fosse
Ana seria mar
Mas se Ana fosse verbo
Ana seria amar!

da titia que espera, ansiosamente, ao lado de Alice, pela vinda de Ana.




Débora Paixão


Observação: Poderia dizer que é uma adaptação de um poema do Paulo Leminski, pois embora não tenha feito sobre ele, há uma semelhança considerável e, por ser fã e tê-lo tanto em mim é capaz que tenha me servido mais do que inspiração. Normal, afinal de tudo que escrevo, nada sei dizer ao certo o que é meu, ou do outro, pois tudo que parece tão meu, na verdade nunca é, e tudo que, mesmo sendo do outro, me toca ... acaba por fim sendo meu também. Decidam por vocês, eu mesma só registro, senão voa com o tempo e se perde...

sábado, 9 de abril de 2016

Nasci sob um corpo pensado por mim antes mesmo de sequer poder pensá-lo
Tocá-lo então, era uma proibição que antecedia, inclusive, o pensamento.
Diziam-me as vozes:
Cubra-se! Vista-se! Comporte-se! Feche as pernas! Abra a boca!
Sorria! Agradeça! Peça desculpas! Não chore!
Deram-me tantas ordens... Tornei—me ordinária.
Por vezes, os interrompia ao passo que rompia o silêncio forçado ao qual fui submetida.
Hoje, faço! Abro! Enfio! Esfrego! (...) Toco! Engulo! Cuspo! Gozo – e gosto!
Não me culpo nem os desculpo.
De olhos arregalados, hoje, olham para o meu despudor.
É verdade, eu sei, explodi.
Ou talvez, só tenha gozado disso tudo.
Quebrei, pois a lei do silêncio e não mais calei-me 
Pelo contrário, gemi, gritei, enfim ejaculei-me.

Débora Paixão




segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Toda vez que abro uma porta...


Toda vez que abro uma porta vejo uma sala e outra porta. Abro e vejo outra porta. Observo a minha volta, estudo e abro outra porta. As portas nunca acabam. Posso abrir todas as portas e estudar todas as salas, posso e devo, mas de nada me serviriam as portas se eu não olhasse, ou não sentisse, plenamente a luz que entra por elas quando as abro. As portas são infinitas. E eu nem citei, as janelas ...

Débora Paixão

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Apenas


Amor
Às vezes cabe na gente
Outras transborda
E se espalha 

Medo
Às vezes ajuda gente
Quando se vai
E não atrapalha

Amor e medo
Não combinam
Onde um mora 
O outro se manda
Um fica 
O outro cai fora

Se escolhe o medo
O amor encolhe
E corre

Se o amor te ganha
Você escolhe:
Ou transcende 
Ou morre.

Morrer de amor
É uma morte
Que vale a pena

Morre tudo
Que não o é
E fica sobrando
Amor, apenas.

Débora Paixão 

domingo, 27 de julho de 2014

Quando

Quando a última folha cair
E o mundo parecer desabar
Quando uma lágrima queimar seu rosto
Quando a barriga doer de tanto rir
Quando acabar a água, a luz ou gás
E quando nascer o sol ou brotar a flor
Quando espetar o espinho
Quando a chuva cair
E inundar a cidade
Quando romper o império
E morrer o último papa
Quando descobrirem a cura pra AIDS
Ou para saudade
Quando os anjos descerem
E disserem amém
Quando o bebê nascer gargalhando
Quando o dente de leão assoprado pela criança sair voando sobre o pasto
E os cavalos marcharem um tango argentino
Quando todos os absurdos
E principalmente os possíveis
Acontecerem, cada um, em seu tempo
É a sua mão que quero segurar
E se soltar sua mão de repente
Ainda assim, sentirei o calor do seu sangue
Como quem acredita ser eterno enquanto dure
E ainda que vá embora
Ou que nada disso aconteça
Minha mão estará sempre na sua
E também a minha vida
Como sempre esteve.

Débora Paixão