domingo, 6 de maio de 2018

nada nada

nada do que escrevo é meu
nem seu nem de ninguém
pode ser que nada do que escrevo
seja
e, por mim, tudo bem...

(Débora Paixão)

domingo, 29 de abril de 2018

Rio eu

Me olho na beira do rio
Meu reflexo pergunta:
Quem é você?
Eu rio
Me molho de rio
Ele me olha nos olhos
Molhados
Rio eu
E o rio?
Por que será que me sorri?
A água passa e nada
Sou nada
E no rio me nado
O rio me dá risada
E eu rio mais uma vez
Passa outra água
No mesmo rio
Que me olha de viés
Por que será que me olha?
O rio inteiro me molha
Sou rio da cabeça aos pés.


(Débora Paixão)

segunda-feira, 26 de março de 2018

Chato é ter certeza

Chato é ter certeza
Ser isso
Ser aquilo
Saber isso
Não saber
Ser aquilo
Não ser
Delícia é viver enquanto
Sem saber quanto
Sem saber quando
Sem saber por onde
Nem porquê
Bom mesmo é viver
Viver e pronto
E viver sendo
Sem sequer talvez ser
Viver desconhecendo
Gozar na indecisão
Sem pressão
Nem pretensão
Sem tensão
Bom é viver gozando
O perpétuo instante
Do tesão

Débora Paixão

sábado, 3 de março de 2018

Mutação Genética

Fui feita pra não sujar
E por ironia - ou mero gozo do destino -
Afundei os pés na lama
Já lavei minhas mãos de sangue
Ainda que tenha sido o meu
Não sabia até então
Que logo o vermelho teria gosto de mel
Mamãe olha triste
Pensa onde errou
Se faltou sabão pra me lavar a boca
Papai não se dá o trabalho
E eu me lavo na chuva
Só para deitar na cama
Com cheiro de cachorro molhado

(Débora Paixão)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Impressões do tempo e do vazio



Altos e baixos. Férias na casa do meu vô, aqui em Vista Alegre, é assim... Um dia cheio de função, gente entrando e saindo da casa toda hora. Crianças (e adultos) entrando com o chinelo cheio de barro, deixando as tias enlouquecidas. O chão não para limpo, a pia não para vazia...
No outro dia, porém, tudo para. O vazio. Ninguém vem. Só o sono. Vai e vem toda hora. Cochila, acorda, anda até ali e volta pra cochilar mais um bocado. Às vezes aparece alguém procurando alguém e não acha.
Tem dia que até cachorro latindo é um evento. Galinhas seguem sendo galinhas, cacarejando por aí e patos seguem sendo patos, a cagar por tudo quanto é canto.
Nesses dias, minha natureza melancólica potencializa. Fico pensando de pensar em pensamentos que tive e por qual motivo. 
Olho os retratos na parede, os buracos do chão, os amarelados, as rachaduras. Uma parte minha que viveu aqui quando ainda tinha outras cores e sons acorda procurando pelo que havia, pelo que ouvia. A vó gritando "Mariiiia"; outra, que sequer viveu no tempo das fotos, fica sentindo que perdeu alguma coisa.
A cabeça fica transitando entre tempos que foram e não foram meus e histórias que mesmo não sendo minhas, se fizeram.
Hoje, sentada num sofá e meu vô, deitado noutro, perguntei: - Vô, como é pra você estar com 90 anos? Ele respondeu: - Passou rápido né? Eu panhava leite ali em cima, com carro de boi e já faz 70 anos.
E eu aqui passando um dia que às vezes parece durar uma semana. Ele, uma vida, nesse ritmo. Lento. Com muito tempo. Depressa.
Não sei que pressa é essa que a gente se acostuma a sentir.
Olhei pra ele e notei, com ternura, quantas rugas sua pele ganhou no último ano. O quanto alguns hábitos foram deixados de lado.
A horta que ninguém podia por a mão, ficando pra amanhã. O barbeiro de toda terça e sábado sendo remarcado por esquecimento.
O vazio às vezes é voraz. Tanto é que mastiga, engole o tempo. Passa a ser ele o protagonista. 90 anos. 
Ei, tempo! Desacelera. 
A casa enche, esvazia. O tempo passa, para, corre, fica. 
Meu vô e eu estamos sentados na mesma sala, o tempo passa e para pra cada um. Pelos olhos dele a casa enche, esvazia, grita, silencia, suja, limpa. De repente. Passou. Independentemente se ele senta ou levanta. Se quer ou não. E os olhos dele se movem, a boca silencia porque nada se opõe. O corpo fica. Mas tudo o sente imóvel sob os móveis da sala, ou do quarto, ou da cozinha.
A casa racha, quebra, amarela, remenda.
O tempo não. Ele não volta, não conserta, não adianta. O tempo não muda. A vida sim, as prioridades, as pessoas, até as paredes. As nossas impressões mudam. As nossas impressões mudam o tempo todo. Elas mudam o tempo.
Por hoje ainda arrisco que a única coisa que o tempo muda são as nossas impressões... sobre o mundo, a vida, os lugares, as coisas e ele mesmo. Das duas uma, ou isso é verdade, ou não passa de impressão minha.

Débora Paixão

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Mar



O mar se espalha sobre as pedras
Se esparrama em reverência a todo o resto do mundo
Eu, simples sujeito, o reverencio.

O mar canta sua melodia espumada
Gotejando, chovendo, se expandindo
Enquanto eu me silencio.

O mar me causa indefinições
Tão profundo e tão superfície.

Mas quando o mar se desenrola
Em uma onda que me parece lamber os pés
Eu sei o que somos!

Mesmo sem poder dar nome...

(Débora Paixão)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Desapegar é preciso


Três vezes ao ano, aproximadamente, eu desapego das roupas que me cansam, que só ocupam espaço. Algumas roupas são mais fáceis. Outras parecem trazer consigo tanta história que acabo deixando pra próxima vez. E a próxima vez às vezes fica também para a próxima e nessa brincadeira, aquela história fica presa a mim por anos. Quero dizer, aquela roupa. Estou falando apenas de roupas. Quero que isso fique bem claro, porque pessoas a gente não descarta assim. Quero dizer histórias, não pessoas. Calma! Respira! 
Como que a gente faz pra se desfazer de algo que cuidamos tão bem e protegemos tão bem que sequer usamos? Deixamos lá tão bem guardadinhas as histórias. Roupas! Tão bem guardadas sem usar que o tempo vai lá e acaba usando. Amarelando. E as histórias vão perdendo as cores que tinham, os cheiros, a graça, o sentido. Aí acontece de a gente não lembrar mais o porquê de ter guardado tanta coisa por tanto tempo...
Não me servem mais, embora muitas ainda caibam. Mas serviriam a alguém? Afinal, continuam sendo roupas e como toda roupa, mesmo as velhas, estão sujeitas a ficarem mais bonitas, quando usadas por outra pessoa. Porque quem recebe uma roupa velha ou usada, recebe como nova em suas mãos e os seus olhos e seus sentidos voltam-se para aquela peça e enxergam uma possibilidade. Isso dá medo, não dá? Lidar com as inúmeras possibilidades alheias em algo que já não podemos insistir em manter, mesmo que em segredo. Me deu medo, mas deixei passar.
Hoje, peguei algumas peças e me despedi. Passei pra frente, passei da fase. Segui. Junto delas foram-se algumas histórias e pessoas, confesso. E estou estranhamente tranquila. Roupas novas se eu precisar, eu compro. Já as boas novas, as novas histórias e as boas pessoas a vida me traz de graça. E estas, graças a Deus, eu posso guardar para sempre.


Débora Paixão

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Amanhã seria

O dia amanheceu como se houvesse dúvida
Não sabia o sol se acordava
Ou se a noite não dormia
Meu coração ficou alternando uma melodia de chuva
Há tempos dentro de mim alguma coisa chovia
Alguma coisa que plantei ao pé do seu ouvido
Mas eu não sabia
Talvez no seu pescoço meu fôlego tenha se perdido
E nele ficou esquecido de vez
Pode ser o ar que me falta quando o dia amanhece assim
Como se amanhecesse em talvez...

Débora Paixão